Ainda era preciso vencer o rio, agora difícil de atravessar com tanta carga, e a serra toda de alto a baixo até chegar a casa e tinha que o fazer antes dos primeiros sinais de luz. Os movimentos apressados das pernas negavam a calma que lhe ia lá dentro, tantos eram já os caminhos que tinha percorrido e os perigos que tinha enfrentado.
Ao longe, ouvia-se o cantar surdo das águas. Era o primeiro obstáculo. Descia por um carreiro estreito, estorvado por giestas do tamanho de dois homens. Tinha de estender o braço e dar-lhes a mão esquerda para não lhes oferecer o rosto. A descer para o rio, aumentava a humidade e sentia-se mais o gelo da noite. A lua era nova e, escondida, a sua única companhia cúmplice.
Atrás dos olhos, que se concentravam nos passos, trazia a ideia do filho que havia de nascer. A Ana estava de oito meses e tal e havia de ser um rapaz. O primeiro. Já lhe via o sorriso rasgado, como um rego fértil, igual ao seu, os olhos da cor da erva como os da Ana. E a havia de ter umas mãos grandes, de palmas firmes e dedos finos. Já tinha comprado uma navalhita em Espanha para lhe dar quando conseguisse aguçar uns pauzitos. Havia de ir estudar para a vila quando fosse grande e ser um doutor de leis, Deus lhe desse saúde para trabalhar para isso.
Chegou ao rio, rigueiro no lugar escolhido para passar. Ainda assim, as pedras estavam submersas e a água tomar-lhe-ia as pernas até aos joelhos. Hesitou alguns segundos atrás do carvalho grande antes de se aproximar dos salgueiros que se inclinavam sobre as águas. Decidiu descansar um pouco e pousou a saca que pesava o mundo. Três garrafões de azeite e um fardo de bacalhau era o que conseguia carregar. O burro adoecera e ainda não podia comprar outro. Sentou-se no colo do carvalho e acendeu um Ducados. O calor do cigarro trazia-lhe um bocadinho do sossego do lume de sua casa e da companhia da Ana. Era preciso continuar!
Sentindo apenas o rumor familiar da corrente entre as pedras, arredou do seu corpo o frio, levou o fardo às costas, acomodou-o como deve ser, agarrou a saca com os dentes a ranger e avançou. Os pés eram blocos gelados que as meias de lã pouco acomodavam. E a água do rio não seria uma bênção.
Entretanto, em casa, Ana sentia-se a morrer de dores e ouvia a voz irritante da tia Palmira que lhe pedia repetidamente a força que ela julgava não ter. Onde estava o homem dela? Onde andava aquele desgraçado numa hora daquelas? Tinha ficado a jogar às cartas na taberna! Ficam lá todos até de madrugada e depois zangam-se uns com os outros.
- Foi ao outro lado... - conseguiu, ainda, esclarecer a parteira que se via já desesperada.
Não tinha tido tempo de chamar ninguém. Valeu a Ana a vizinhança da tia Palmira àquela hora da noite. A pobre senhora mal tinha conseguido para pôr a água a aquecer e preparar os panos porque a Ana já estava prontinha para o parto. Crepitava ainda um pau de carvalho com algumas brasas quase mortas à volta. Com mais uns trochos, a água do pote foi tomando temperatura. A candeia do quarto mostrava levemente o sofrimento pintado na cara da Ana, mas os seus gritos traziam toda a dor. À tia Palmira juntaram-se duas outras vizinhas que, nos seus xailes pretos, sem lenço na cabeça, acudiram aos gritos, cuja natureza tão bem conheciam.
A entrada no rio foi uma autêntica pedrada nas pernas. A água estava tão fria como nunca a sentira e nem o soprar repetido da sua respiração atenuava a dor do frio que lhe subia já pelas entranhas. Foram segundos terríveis. A pequena represa que crescia um pouco mais abaixo, oferecera ao curso do rio o testemunho quebradiço do gelo que o surpreendeu. Sem parar, chegou ao outro lado na eternidade de poucos sofríveis momentos, fazendo crescer o rumor da água com movimentos determinados e seguros. Atravessado o rio, aumentou o ritmo do caminhar, quase sem sentir os membros que por si o levavam.
A candeia tremia em casa de Ana e tornava mais claros os gritos do rapaz que aquela noite fria touxera são e valente. Ana sorria, exausta e feliz, com a criança nos braços, enquanto a paciente tia Palmira ia limpando os vestígios do nascimento.
Do outro lado da aldeia, que já nascia da noite, entrava em casa, de boina enfiada até às orelhas e com o rosto mais branco do que a geada na terra e a aurora que se anunciava, o Quim da Lurdes. Todo ele tremia. A espingarda deixara-a por baixo duns tojos perto do lameiro para onde costumava botar as vacas naquele início de Primavera. Amanhã ia lá buscá-la e trazia-a por baixo do casaco! Depois ficava na corte até outro dia! Ninguém tinha visto nada e ninguém sabia quem tinha sido!
Lurdes, conforme estava no momento em que Quim se levantou da cama e saiu sem dizer palavra, assim ficou. Não dormia desde então, todavia. Em momento algum ousava perguntar para onde ele ia ou o que ia fazer. E a mesma atitude teve quando o sentiu abrir a porta e assumir a soleira. A preocupação que a consumia apagou-se com os seus passos. Depois de tirar as botas, sentado no escano, e de olhar as últimas brasas do lume, com as mãos a pressionarem-lhe as têmporas, Quim foi deitar-se ao lado da mulher que fingia dormir. Estava petrificado e não conseguia sequer pensar. Lurdes sentiu todo o frio da madrugada no corpo do marido, mas não balbuciou qualquer palavra, não se permitiu qualquer ruído. Embora não conseguissem dormir, ela pela dúvida, ele por exprobação, ambos se mantiveram imóveis e silenciosos, cada um voltado para seu lado de olhos bem abertos.


