momentos com palavras

... apenas isso.

5.6.08

III.
Os dias já não começavam à mesma hora. Como se houvesse um manto que se estendesse sobre a manhã, o seu sono estendia-se até ao momento de já não se ouvir qualquer ruído na rua. O Horácio já tinha botado as vacas há muito, a Ana do Quintas já acomodara os animais há umas horas... Nas casas das redondezas já tudo bulia desde a primeira manhã como era natural. Deitar quase com o Sol e com ele, ou antes dele, dar vida à vida. Mas o Lameiras continuava metido consigo, num sono quase mortal e num fechamento que preocupava a aldeia.
O janelo da cozinha daquela casa já não se abria desde a Lua Nova. E ninguém percebia por que razão é que o rapaz não saía de casa. Tinha vendido as vacas, as ovelhas, as melhores terras e não saía de casa. Pelo menos que alguém o visse.
A tia Rosa tinha falecido no Inverno, quando as geadas arreavam desde que o sol se esconde até voltar a estar alto. A gripe que a apanhou nem deu tempo ao doutor. Nem o padre lhe valeu. Foi com Nosso Senhor de um mal qualquer que lhe atacou os pulmões. E o Lameiras era o seu único filho, o único homem naquela casa desde os doze anos, quando o pai partira para o Brasil para nunca mais. A tia Rosa trabalhou como uma escrava e o Lameiras como o filho de uma escrava. Sobreviveram. Mas um Inverno trouxe aquele mal à tia Rosa e não houve quem lhe valesse. O Francisco sentia-se culpado pela morte da mãe. Porque é que a tinha deixado ir acomodar as vacas naquele dia? Escusava bem de apanhar aquela nevada que a molhou até aos ossos, que a gelou até às entranhas e que atirou com ela para a cama de uma vez para sempre! Estes e outros pensamentos atromentaram-no durante vários anos, mas a maneira como agarrava na enxada e rasgava a terra para ela lhe dar alguma coisa começaram a sossegar as pessoas que o viam fazer pela vida que o tinha deixado completamente sozinho.
O Francisco Lameiras cumpria todas as obrigações comunitárias que lhe competiam sem falhas. Botava a vezeira na vez dele, moía o centeio quando tinha de ser, carrava a lenha para o forno quando a tia Aurora cozia o pão que lhe dava, virava a água para as suas terras quando devia e ajudava a gente da aldeia como o ajudavam a ele. Assim era.
Todos estranhavam, porém, a solidão do Lameiras que, como vinte e quatro anos, não tinha ainda arranjado namoro. Não tinha ido à tropa por causa de um defeito qualquer que lhe acharam numa das vistas. Não conseguiria dar tiro certo e por isso mandaram-no para casa. Mas ele via bem. Se calhar não via era tudo o que queria. E quem ele queria já o tinha visto a ele como devia ser.
Homem afável e de poucas palavras, o Chico Lameiras era baixo e valente, com mãos de pedra e rosto carregado que não atraía muito a simpatia das moças. Os seus olhos deixavam verdadeiramente transparecer a sua alma. Eram transparentes como um rigueiro que vem da serra. Sempre que sentia qualquer olhar feminino sobre si, baixava a cabeça e desandava. Todavia, os olhos da Lucinda já o tinham prendido. E definitivamente. A Lucinda era filha do Lopes e tinha menos dois anos que ele. Quando andava para o Lopes, os melhores momentos do dia passava-os quando era a Lucinda a chegar-lhe o pipo e a deixar-lhe no ar um "Bebe um golo, Chico", de cabeça baixa e com um sorrisinho envergonhado a brilhar-lhe no rosto. Tudo resplandecia à sua volta. Até o trabalho parecia mais leve. Mas não conseguia dar-lhe palavra. Aquele anjo de rosto rosado e cabelo preto havia de ser o seu anjo.
Um dia decidiu-se. Ia falar com a Lucinda, ia dizer-lhe que havia de ser sua mulher, ia dizer-lhe que não podia dizer coisas bonitas porque não sabia, ia dizer-lhe que tinha os olhos como dois sóis... Bem, provavelmente, não ia dizer-lhe nada disto, mas queria falar com a sua Lucinda. Ia ser no domingo.
Os dias até domingo passaram como foguetes e, de repente, estava no fim da missa. A Lucinda estava linda. Trazia um lenço azul. De braço dado com a mãe, saía da capela mais brilhante do que a Senhora que estava no altar. O Chico saiu logo a seguir e aproximou-se. O pai estava a falar com o Tonho da taberna. Lucinda continuava de braço dado com a mãe e os seus olhos eram agora ainda mais brilhantes sob aquele sol de Primavera.
- Bom dia, Dona Berta!
- Atão, Chico? - disse a senhora a sorrir.
- Cá vamos andando como Deus quer...
- Pois é rapaz! Pois é...
Os segundos que se passaram pareceram ao Lameiras uma eternidade, mas ele sabia que era a sua oportunidade de falar à Lucinda, de lhe dizer...
- Ó Lucinda, hoje trazes um lenço muito bonito, sabias?
Enquanto ela corou e sorriu...
- Olha este! Atão, Chico? Estás-te a meter com a minha Lucinda? Olha que ela não é para o teu bico! - disse o Lopes que se aproximara.
O Lameiras não sabia onde se havia de meter com a risada que se gerou à volta. No fim da missa junta-se o povo todo à porta e a vergonha que sentiu foi do tamanho da serra. Levantou o rosto, fixou os olhos na Lucinda que lhe pedia silêncio com um acenar de cabeça mudo, pôs a boina na cabeça e foi para casa com um "Bom dia" agastado.
Desde essa manhã, ninguém mais viu o Lameiras...
Numa madrugada qualquer, saía a Dona Berta a gritar porta fora que a Lucinda tinha desaparecido. O Lopes vinha logo a seguir de caçadeira na mão.
O Lameiras e a Lucinda não iam longe, mas já tinham tudo pronto para fugirem para Espanha. Em pouco tempo apanhariam um barco para o Brasil.
As cartas apaziguavam o coração da Dona Berta, mas não amoleciam o peito do Lopes.

11.4.08

o caminho

Lembra-se de todas as caras. Traziam o Inverno ainda nas rugas mais fundas.

Sentava-se no muro do lameiro do tio Zé Tarola a morder uma palhita à espera de um companheiro que o ajudasse nas empresas aventureiras serra adiante. Ali podia controlar tudo. As velhas horrendas que berravam sempre que passavam por ele. Os homens carregados de molhos de erva às costas, com a gadanha a ampará-los. Aqueles que levavam os pequenos rebanhos para lá do rio. Os que botavam as vacas e as levavam num ritmo quase tão pachorrento como o dum cortejo religioso. As lavadeiras pontuais que esfregavam umas pedras que havia a descer para o rio. Todos. E olhava-lhes o rosto. Prendia-se-lhes no rosto até a um tu que queres rapaz que andas para aí a armar que o fazia evadir-se na palavra mais eficaz para o enunciador e menos fiável para o interlocutor: "Nada!"


A verdadeira liberdade vivia-se do outro lado do rio e, para ele, a ponte era um verdadeiro pesadelo porque deixava que todos pudessem passar para o lado de lá. Sem ponte apenas os mais valentes podiam chegar ao outro lado. Tinha até um plano para a botar abaixo quando fosse grande... Mas cresceu.


E ainda faz o caminho para o Corgo Longo... para não se esquecer. Ou para esquecer.

4.1.08

II.


O silêncio cobria a noite. Era assim desde a morte do Gestas. Encontraram-no à entrada do cemitério dois rapazes que vinham do namoro da aldeia vizinha e foram logo a correr a casa da senhora Arminda, viúva que morava uma casita à entrada da aldeia. Dali ao tumulto geral foi um passo muito pequeno. E toda a aldeia de candeia na mão envolvia de luz trémula o corpo despido do Gestas. Só podia ser obra do diabo! Deus os livrasse de todo o mal! E, entre Padres Nossos, as mãos movimentavam-se em cruz repetidamente entre a cabeça e o peito. O corpo, em posição fetal, não apresentava qualquer marca de violência. A pouca luminosidade mostrava um sorriso pintado nos lábios do homem, mas os olhos entreabertos tinham ainda plasmado um evidente sinal pavor. Encostada ao portão, encontrava-se uma pá.
O Gestas vivia sozinho. Filho único, perdera o pai e a mãe num surto de febre que varrera quase metade da aldeia quando ele cumpria serviço militar em Angola. Nem sequer os enterrou. Estavam vivos, dizia, e tinham ido morar para outra terra que só ele sabia! O sustento vinha-lhe, magro, de uma pensão pela mão esquerda deixada na guerra e da enxada que ainda conseguia equilibrar para cultivar qualquer coisa para si, para o reco e para uma burrita que tinha herdado.
Depois da morte dos pais, quando regressou à aldeia, o Armindo vinha com um olhar não-olhar. Não falava com ninguém e fugia do contacto com o povo. Com o tempo, recebia a pena dos mais velhos, a indiferença dos da sua idade, o insulto dos jovens e o pavor das crianças. Estava tolo!
No entanto, fazia surgir no íntimo feminino alguns arrepios. Alto, atlético e bem parecido, merecia também sentimentos profundamente escondidos de muitas das mulheres da terra. Solteiras e casadas. Porém, tudo incofessado e inconfessável. Mas os homens percebiam os olhares das mulheres e apertavam os dentes de ódio daquele desgraçado.
Quando chegou à aldeia, no seu silêncio, abriu a porta de casa que tinha a chave na porta desde o enterro dos pais. O vizinhos que tentaram aproximar-se com palavras de apoio, os da sua idade, colegas de escola e de juventude antes da tropa, todos receberam um olhar vago sem palavras. Desta forma, afastou toda a aldeia de si.
Colmou a casa para o Inverno e meteu-se lá dentro, saindo apenas de manhã para ir buscar alguma lenha, quando lhe faltava para o lume, e um cântaro de água à fonte. Começaram a vê-lo novamente no fim das neves com a enxada às costas, magro como um fuso a virar a terra numa leira ao pé de casa.
Ao longe, de um janelo, Luzia seguia, como podia, a luz da candeia mortiça que acendia a única janela da casa do Armindo, à espera de algo mais do que a sua ausência. Amavam-se antes da tropa e ela continuava a ler as cartas da guerra, como se ele ainda lá estivesse. Não lhe dirigiu qualquer palavra quando voltou. Foi para ele invisível como todos os outros. Continuava a amá-lo, todavia. Por isso, numa manhã em que vinha do palheiro com um molho de feno para acomodar o gado, ao ver Armindo de enxada às costas na sua direcção, parou, deixou cair o molho de feno e, com os olhos a transbordar de angústia, não aguentou.
- Que andas a fazer, Armindo? Tu que tens?
O Gestas levantou os olhos que trazia no chão.
- Luzia! Como estás bonita!
- Tu que tens Armindo? Diz-me o que tens? Fala comigo! Já não me queres? - chorou ela.
Mas o Gestas levou novamente o olhar para o caminho e continuou a receber o desespero de Luzia de costas. Poderia dizer que as lágrimas que nasciam dos belos olhos grandes daquela rapariga feriam profundamente o peito do Gestas. Mas não era assim. Magoavam apenas o chão, pesadas e inúteis. Sem se voltar, Luzia pegou no molho do feno e deixou que o vento lhe secasse o rosto antes de chegar a casa para não testemunhar em demasia a sua desgraça perante a mãe, que não aguentava já o estado da filha.
Desde o final da Primavera em que regressara, as únicas palavras de Armindo foram para Luzia. E não disse outras. O seu silêncio era o única coisa que lhe restava e o que queria para si.
Passaram-se alguns meses. Luzia não teve força para voltar a falar-lhe, esperando, porém, que ele regressasse a si. Pareceu-lhe lúcido no dia em que o abordou. Embora o tivesse sentido triste como um rio, esperava a luminosidade dos seus olhos e a força dos braços que ainda recordava. Sentia-se morrer, porém.
No final de uma tarde de Maio, ao regressar com a burra do Lameiro do Salgueiro Grande, o Gestas encontrou-se com o Filipe Cuco.
- Atão, Gestas! Olha lá, já que não queres a Luzia, eu vou-me botar a ela!
Flamejaram os olhos do Armindo e vibrou o cabo da enxada na testa do tratante que tombou como um carvalho cortado por baixo. Não se mexeu mais. Valeu-lhe vir o Alfredo da Quina que o acudiu a tempo. Botou-o às costas e correu até casa do padre que, depois de lhe atar uns panos à volta da cabeça, o meteu no banco de trás do carro e o chegou à Casa do Povo da vila. Tinha sido por pouco! A ver se se safava! Tinha perdido muito sangue! Disse o doutor depois de lhe coser a testa. Mas o Filipe lá tomou acordo.
O Gestas como lhe deu assim continuou o seu caminho para casa.
Foi por esses dias que apareceu morto. Despido. Ninguém queria acreditar que o Filipe o tivesse matado. Não era que não o merecesse, mas não tinha sido ele! Dizia-se. Porque é que o rapaz o haveria de despir! Se o quisesse matar, tinha-lhe dado uma sachada nos cornos, como lhe tinha feito ele! Isto diziam e pensavam os homens. Era coisa do demo! diziam algumas mulheres.
Naquela noite, Luzia ouviu o que acontecera e não saiu de casa. Perdera Armindo há muito tempo. Não fora a sua morte a levá-lo.
O Cuco foi levado pela guarda para ser ouvido, uma vez que recaíam sobre ele as mais óbvias suspeitas. No entanto, havia vários homens a jurar a pés juntos que, quando morreu Gestas, o Filipe tinha estado a jogar às cartas na taberna até chegar a notícia do que estava à porta do cemitério.
Por esse dias ninguém saía de casa depois de o Sol se esconder. Andava por ali o diabo! Aquilo era bruxedo ou coisa ruim!
No dia em que apareceu morto, Armindo fez o que sempre fazia. Quando chegou a casa ao fim da tarde, meteu a burra e acomodou-a. Foi depois botar ao reco. Subiu as escadas e apercebeu-se que a porta estava só encostada... Tinha-se esquecido de a fechar com o trinco, de certeza. Tirou as botas e acendeu o lume. Encostou-se um bocado no escano e adormeceu. Já noite fechada, acordou e agarrou um naco de pão que acompanhou com um chamusco, possível ainda nas brasas que resistiam. Como não tinha vinho pegou no cântaro, que ainda tinha um golo de água, e bebeu-a até ao fim. O sal do chamusco assim obrigava. Composto, pôs mais uns trochos no lume e deitou-se no escano a ver o lume a renascer.
Pouco tempo depois de adormecer, dores terríveis atacaram-lhe o estômago. Sentiu-se, depois, a arder. Correu ao bacio e botou fora o que ainda lá restava. A luz da candeia não lhe permitiu ver o sangue que jorrara. As entranhas pareciam ter bebido todo o lume do mundo e o Gestas sentiu-se horrivelmente feliz. Chegara a hora. Não gritava as dores que o corroíam. No seu silêncio, queria morrer sozinho e encontrar-se com os seus sozinho. Negara a morte dos pais para o considerarem louco e o deixarem em paz. Agora iria encontrá-los. Sozinho. Mas queria ainda voltar a ver os olhos grandes da sua Luzia. Havia de lhe dizer que estava bonita. Tirou a roupa para entrar puro na terra e, a custo, conseguiu ainda pegar numa pá para abrir o seu próprio buraco sobre a campa de seus pais.
Só conseguiu chegar ao portão do cemitério. Estava fechado. Encostou a pá e tentou forçá-lo. Faltaram-lhe, porém, as forças e a vida. Tombou, curvou-se e preparou-se para receber a morte. Levantou a cabeça e sorriu, com a morte a toldar-lhe já a vista.
- Luzia! Como estás bonita! - disse ainda.

10.12.07

e lume




















esperamos o silêncio
dos dias
no fluir dos nossos passos
que levamos tensos
e cansados
no lume brando dos tristes
dos lamentos
dos falhados


esperamos a justiça
dos dias
no cair dos nossos braços
que arrastamos mortos
e enterrados
na cinza eterna dos cisnes
dos brandos
dos calados


mas queremos vida
e lume

19.10.07

Contos de Larouco

I.

Sabia que a noite lhe trazia o abrigo. Na sua passada larga e segura, continuou a afastar involuntariamente as pedras invisíveis que se lhe atravessavam à frente dos pés, como que a travar-lhe o caminho. Não precisava de ver muito para saber as veredas a percorrer e conhecia todos os buracos da serra, onde podia esconder a carga e onde podia aninhar-se se pressentisse algum guarda-fiscal dos que não eram dos conhecidos, próximos, companheiros. Os seus davam sinal. No bolso do casaco pesava-lhe a pistola, que o arreliava como andar à chuva, mas que trazia por necessidade. Só a usava nestas andanças e mal chegava a casa, arrumada a carga no baixo, pegava nela e metia-a atrás duma pedra solta na parede atrás da porta que dava para as escadas.

Ainda era preciso vencer o rio, agora difícil de atravessar com tanta carga, e a serra toda de alto a baixo até chegar a casa e tinha que o fazer antes dos primeiros sinais de luz. Os movimentos apressados das pernas negavam a calma que lhe ia lá dentro, tantos eram já os caminhos que tinha percorrido e os perigos que tinha enfrentado.

Ao longe, ouvia-se o cantar surdo das águas. Era o primeiro obstáculo. Descia por um carreiro estreito, estorvado por giestas do tamanho de dois homens. Tinha de estender o braço e dar-lhes a mão esquerda para não lhes oferecer o rosto. A descer para o rio, aumentava a humidade e sentia-se mais o gelo da noite. A lua era nova e, escondida, a sua única companhia cúmplice.

Atrás dos olhos, que se concentravam nos passos, trazia a ideia do filho que havia de nascer. A Ana estava de oito meses e tal e havia de ser um rapaz. O primeiro. Já lhe via o sorriso rasgado, como um rego fértil, igual ao seu, os olhos da cor da erva como os da Ana. E a havia de ter umas mãos grandes, de palmas firmes e dedos finos. Já tinha comprado uma navalhita em Espanha para lhe dar quando conseguisse aguçar uns pauzitos. Havia de ir estudar para a vila quando fosse grande e ser um doutor de leis, Deus lhe desse saúde para trabalhar para isso.

Chegou ao rio, rigueiro no lugar escolhido para passar. Ainda assim, as pedras estavam submersas e a água tomar-lhe-ia as pernas até aos joelhos. Hesitou alguns segundos atrás do carvalho grande antes de se aproximar dos salgueiros que se inclinavam sobre as águas. Decidiu descansar um pouco e pousou a saca que pesava o mundo. Três garrafões de azeite e um fardo de bacalhau era o que conseguia carregar. O burro adoecera e ainda não podia comprar outro. Sentou-se no colo do carvalho e acendeu um Ducados. O calor do cigarro trazia-lhe um bocadinho do sossego do lume de sua casa e da companhia da Ana. Era preciso continuar!

Sentindo apenas o rumor familiar da corrente entre as pedras, arredou do seu corpo o frio, levou o fardo às costas, acomodou-o como deve ser, agarrou a saca com os dentes a ranger e avançou. Os pés eram blocos gelados que as meias de lã pouco acomodavam. E a água do rio não seria uma bênção.

Entretanto, em casa, Ana sentia-se a morrer de dores e ouvia a voz irritante da tia Palmira que lhe pedia repetidamente a força que ela julgava não ter. Onde estava o homem dela? Onde andava aquele desgraçado numa hora daquelas? Tinha ficado a jogar às cartas na taberna! Ficam lá todos até de madrugada e depois zangam-se uns com os outros.
- Foi ao outro lado... - conseguiu, ainda, esclarecer a parteira que se via já desesperada.

Não tinha tido tempo de chamar ninguém. Valeu a Ana a vizinhança da tia Palmira àquela hora da noite. A pobre senhora mal tinha conseguido para pôr a água a aquecer e preparar os panos porque a Ana já estava prontinha para o parto. Crepitava ainda um pau de carvalho com algumas brasas quase mortas à volta. Com mais uns trochos, a água do pote foi tomando temperatura. A candeia do quarto mostrava levemente o sofrimento pintado na cara da Ana, mas os seus gritos traziam toda a dor. À tia Palmira juntaram-se duas outras vizinhas que, nos seus xailes pretos, sem lenço na cabeça, acudiram aos gritos, cuja natureza tão bem conheciam.

A entrada no rio foi uma autêntica pedrada nas pernas. A água estava tão fria como nunca a sentira e nem o soprar repetido da sua respiração atenuava a dor do frio que lhe subia já pelas entranhas. Foram segundos terríveis. A pequena represa que crescia um pouco mais abaixo, oferecera ao curso do rio o testemunho quebradiço do gelo que o surpreendeu. Sem parar, chegou ao outro lado na eternidade de poucos sofríveis momentos, fazendo crescer o rumor da água com movimentos determinados e seguros. Atravessado o rio, aumentou o ritmo do caminhar, quase sem sentir os membros que por si o levavam.
Já do lado de cá da fronteira, estava mais ou menos a três mil passos do alto da serra. Depois ajudavam-no os santos até à aldeia. Sentia-se com forças para fazer a subida sem parar, mas pedia a Deus que o fizesse esquecer os pés miseráveis que começava a sentir a chocalhar dentro das botas. O braço direito equilibrava o fardo que lhe feria o ombro e a saca dos garrafões de azeite pendia do lado esquerdo sem oscilar. As mãos já não as sentia. Havia um brilho ténue no mato, a testemunhar a geada que já cobria toda a serra.
Subia já longamente e o seu pensamento regressava à Ana e ao filho. A mulher estaria em casa à sua espera com o lume aceso para se aquecer e uma sopita no pote para temperar a barriga. Como estava bonita a Ana com aquela barriga tão… De súbito, um tiro, que cuspiu uma espingarda antes do alto ou disparo, interrrompeu-lhe a visão do filho, da Ana, e tudo se transformou no noite toda nesse instante. Tombou como um carvalho cortado. Levantou-se um vulto por detrás de um penedo lateral ao carreiro e tomou o caminho da aldeia sem olhar para trás.

A candeia tremia em casa de Ana e tornava mais claros os gritos do rapaz que aquela noite fria touxera são e valente. Ana sorria, exausta e feliz, com a criança nos braços, enquanto a paciente tia Palmira ia limpando os vestígios do nascimento.

Do outro lado da aldeia, que já nascia da noite, entrava em casa, de boina enfiada até às orelhas e com o rosto mais branco do que a geada na terra e a aurora que se anunciava, o Quim da Lurdes. Todo ele tremia. A espingarda deixara-a por baixo duns tojos perto do lameiro para onde costumava botar as vacas naquele início de Primavera. Amanhã ia lá buscá-la e trazia-a por baixo do casaco! Depois ficava na corte até outro dia! Ninguém tinha visto nada e ninguém sabia quem tinha sido!

Lurdes, conforme estava no momento em que Quim se levantou da cama e saiu sem dizer palavra, assim ficou. Não dormia desde então, todavia. Em momento algum ousava perguntar para onde ele ia ou o que ia fazer. E a mesma atitude teve quando o sentiu abrir a porta e assumir a soleira. A preocupação que a consumia apagou-se com os seus passos. Depois de tirar as botas, sentado no escano, e de olhar as últimas brasas do lume, com as mãos a pressionarem-lhe as têmporas, Quim foi deitar-se ao lado da mulher que fingia dormir. Estava petrificado e não conseguia sequer pensar. Lurdes sentiu todo o frio da madrugada no corpo do marido, mas não balbuciou qualquer palavra, não se permitiu qualquer ruído. Embora não conseguissem dormir, ela pela dúvida, ele por exprobação, ambos se mantiveram imóveis e silenciosos, cada um voltado para seu lado de olhos bem abertos.
Surgia já a primeira manhã, quando Lurdes abriu o janelo da cozinha.
- Bom dia! A tua irmã teve um menino, Lurdes! - disse-lhe a tia Palmira, ao passar nos primeiros raios de Sol. - E vai-se chamar Manel, como o pai.

16.10.07

marcas do tempo





Voltada para um nascente distante, com o céu todo espelhado em si, esta janela tem tecidas as marcas do tempo. Fechou-se e assim se manterá, enquanto as paredes suportarem o peso dos dias e Larouco lhe conceder a sua visão. Mas tem o céu todo espelhado em si. E o meu parco olhar.

15.10.07

essências

Questionamo-nos muitas vezes acerca de verdades nossas e alheias e nem sempre chegamos a conclusões. Mas, quando assumimos essas verdades na essência e as vemos claramente, acabamos por vivê-las e senti-las de forma indelével.
A terra.
Estes montes que nos viram nascer, crescer e que nos receberão, crescem em nós e morrem na sua altivez no olhar cansado que muitas vezes lhes dedicamos.
E a água.
As nossas verdades e o ouro que ainda temos. Se as perdermos, perdemo-nos numa não-identidade que anulará a nossa essência. São elas a nossa força centrípeta.

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